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sexta-feira, 31 de maio de 2019

Greve geral: após atos pela educação, ideia é "parar tudo" em 14 de junho

Cerca de 300 mil pessoas se manifestaram nas ruas de São Paulo (SP) no 30M, contra os cortes na educação e contra a PEC da Previdência - Créditos: Foto: Mídia Ninja
O sucesso das mobilizações pela educação, em todo o país, reforçou o chamamento para a greve geral contra a perda de direitos dos trabalhadores brasileiros, marcada para 14 de junho. O ponto-chave da greve é a defesa da Previdência pública e solidária que está sendo atacada pelo projeto de reforma do governo Bolsonaro.
"A reforma do Bolsonaro não é uma reforma, é uma destruição do sistema de seguridade social", explica o secretário-geral da CUT-SP, João Cayres, em entrevista ao Brasil de Fato. Leia abaixo os principais trechos:
Brasil de Fato: Qual a importância das mobilizações da educação para o chamamento da Greve Geral?
João Cayres: A greve geral já estava sendo discutida antes do movimento da educação. (…) Foi muito bom porque foi um sucesso (…), e neste momento todo a gente também está agregando à discussão da Previdência, da Seguridade Social, e já estamos agregando também para a Greve Geral a questão dos cortes na Educação (…). 
Em relação à Previdência, as centrais divergem em alguns pontos. Gostaria que você falasse um pouco nesse sentido.
Nós estamos lidando muito bem, pela primeira vez na história nós conseguimos fazer um 1º de Maio unificado, com todas as centrais sindicais. Algo inédito, cada central sindical fazia o seu, falava com seu público específico, mas a gente conseguiu depois de muita conversa unificar. Do ponto de vista da reforma, o que tem claro pra nós é que a reforma do Bolsonaro não é uma reforma, é uma destruição do sistema de seguridade social. O que ele apresenta, que é o sistema de capitalização, não agrada nenhum tipo de central sindical. Pode ter uma ou outra pensando alguma coisa, em fazer algum tipo de reforma, mas nós da CUT entendemos que as reformas já foram feitas. A última foi em 2015 com a Dilma, com o fator 85/95, que já virou 86/95, que já resolve vários problemas. E a reforma de 2003, (…) que foi essa história de combate aos privilégios. O pessoal fala muito disso, que agora funcionário público não vai mais receber isso aquilo, isso é mentira, por que isso já foi resolvido. (…) Então essa discussão pra nós está tranquila. Nós unimos neste sentido, de que somos contra o sistema de capitalização porque dentro da reforma da Previdência tem também umas mudanças que aprofunda o desastre da Reforma Trabalhista. Que é o caso da chamada Carteira Verde Amarela. 
Em relação a diálogo com governo, há espaço ou é inviável?
É só pegar a declaração do Ministro da Economia, que diz que se mexer uma vírgula ele vai embora do país. É um garoto mimado que não aceita nada e que se não tiver o que ele está pedindo ele vai morar fora. Ou seja, não tem conversa. 
Faltando cerca de 15 dias para a Greve Geral, vão ser realizadas atividades de mobilização até lá?
O que a gente tem feito, falando pela CUT e as subsedes de várias regiões de São Paulo, estamos realizando plenárias nos sindicatos debatendo justamente a forma de fazer as atividades. Vamos fazer panfletagem, assembleias nos locais de trabalho, mobilizando e conscientizando, usando as redes sociais também. Estamos conversando com setor de transporte e a ideia é parar tudo, como aconteceu no dia 28 de abril de 2017.

Transição para capitalização teria custo de R$ 985 bilhões em 20 anos

A transição do regime de aposentadoria para o chamado modelo de capitalização pode custar aos cofres públicos R$ 115 bilhões em 10 anos e R$ 985 bilhões em 20 anos, estima a equipe econômica. A projeção consta de uma simulação apresentada ontem pelo secretário de Previdência, Leonardo Rolim, em audiência da Comissão Especial da reforma da Previdência. A estimativa é baseada em um modelo do Fundo Monetário Internacional (FMI).
Hoje, o sistema de aposentadorias no Brasil é de repartição. Assim, quem está na ativa contribui para um fundo que financia os benefícios de quem já se aposentou. No regime de capitalização, cada trabalhador contribui para sua própria poupança. Essa transição gera um custo porque os contribuintes do novo sistema deixam de recolher para o antigo.
A proposta de emenda à Constituição (PEC) não especifica como o novo regime funcionaria, deixando a definição dos detalhes para uma lei complementar. A simulação apresentada por Rolim nesta quarta a parlamentares considera um dos possíveis desenhos que podem ser adotados, caso o novo regime seja aprovado no Congresso.
O exemplo apresentado pelo secretário é de um sistema híbrido, voltado só para quem ingressar no mercado de trabalho no futuro e optar pelo novo regime. Nesse regime, a contribuição de trabalhadores que ganham até o teto do INSS (hoje em cerca de R$ 5,8 mil) recolheriam para dois fundos. Uma parte seria direcionada para a chamada repartição nocional: o dinheiro continuaria indo para um bolo comum, mas o benefício seria definido de acordo com alguns indicadores (como inflação e PIB). A outra seria investida na capitalização, propriamente dita, em que o dinheiro rende conforme as aplicações no mercado financeiro.
Haveria ainda uma terceira camada, de Previdência Complementar, voltada para quem ganha acima do teto do INSS. De acordo com a apresentação, essa camada permitiria vários formatos a serem ainda definidos, como a possibilidade ou não de contribuição patronal.
Na avaliação de especialistas que participaram do encontro, um modelo híbrido seria justamente o ideal, por evitar que toda a poupança dos trabalhadores fique sujeita a riscos do mercado financeiro. O economista Hélio Zylberstajn, coordenador do Salariômetro/Fipe, defendeu uma permissão para que contribuintes usem o FGTS para formar sua poupança previdenciária.
Já para Fabio Zanitte, professor do Ibmec e da Uerj, apostar na capitalização é um risco. Ele lembrou da analogia frequentemente usada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, de que o sistema previdenciário brasileiro é um avião em chamas prestes a cair. Por isso, defende o ministro, é preciso criar um novo regime. "Mas a solução que ele apresenta é que todos nós temos que pular para fora do avião e bater as asas. Acredito que isso não vá funcionar", criticou.
fonte: portalctb.org

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Globo omite que greve e atos são contra a reforma da Previdência

O portal de notícias da Globo (G1) destacou a cobertura da greve nacional da Educação e das massivas manifestações de protesto com as quais foram temperadas nesta histórica quarta-feira, 15 de maio de 2019. Mas procurou omitir uma informação fundamental, a de que o movimento, que teve o ativo apoio das centrais e dos movimentos sociais, foi originalmente convocado em defesa das aposentadorias e contra a reforma da Previdência do governo Bolsonaro, que é particularmente cruel com os educadores e, ainda mais, com as professoras.
Não é preciso muito esforço para deduzir do comportamento dos jornalistas globais que houve uma determinação editorial muito clara neste sentido. Todos os âncoras e comentaristas do G1 sustentam a meia verdade de que as manifestações são exclusivamente contra os cortes no orçamento das universidades federais, que eles por sinal tentam amenizar e justificar, deixando de dizer que o alvo principal é a malfadada reforma. Um ou outro repórter não deixou de observar, ao vivo, que os manifestantes “também protestavam contra a reforma da Previdência”.
A bem da verdade, seria imprescindível informar que a greve foi convocada pela Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) em 20 de abril, antes do anúncio do bloqueio de verbas (em 30/4) que está estrangulando as universidades e comprometendo inúmeros programas científicos e sociais. A profunda indignação da categoria com a reforma da dupla Bolsonaro/Guedes, ansiada pelos banqueiros e rentistas, foi o grande motivo da mobilização, que progressivamente foi ganhando a adesão e o reforço de outras entidades da categoria, bem como dos estudantes, das centrais sindicais e movimentos sociais. Os cortes no orçamento da Educação contribuíram fortemente para ampliar o movimento.
O jornalismo praticado pela Globo está longe de ter a objetividade e isenção que seus patrocinadores, sob o tacão da família Marinho, aparentam. O que ali se faz, com mais notoriedade em conjunturas de radicalização da luta de classes, é guerra ideológica e seus jornalistas têm que forçosamente aderir aos conceitos e opiniões da patroa. Quando ousam sair da linha, são calados e colocados sob censura, como ocorreu com Chico Pinheiro. É o que os críticos chamam de pensamento único.
Este pensamento único transparece nas notícias sobre a Previdência. Aqui não há espaço para o contraditório, a reforma é o remédio miraculoso para todos os males do Brasil e ponto final, sem ela não teremos mais emprego, nem crescimento, nem serviços públicos. É este o cantochão entoado em uníssono por todos os profissionais da empresa, mesmo os que serão prejudicados pelas mudanças propostas por Guedes e Bolsonaro não devem pensar diferente e se, por acaso, pensarem não devem expressar opinião.
Daí para a manipulação de fatos e notícias é menos que um passo. Há poucos dias, o jornal O globo fez uma leitura enviezada dos resultados de uma pesquisa para “informar” que “seis em cada dez brasileiros concordam com a reforma”, um Fake News, que uma análise mais detida do levantamento logo desmascara. Em relação à reforma da Previdência, a guerra ideológica tornou-se notória e nesta quarta-feira (15) se sobrepôs ao jornalismo.
Queira ou não a mídia da família Marinho, que apoiou os golpes de 1964 e 2016 contra a classe trabalhadora, a greve nacional da Educação foi um grande “esquenta” para a greve geral convocada pelas centrais sindicais, com apoio dos movimentos sociais, para 14 de junho, que também tende a superar as expectativas e pode ser a maior e mais ampla greve da história do movimento operário brasileiro.
fonte: portalctb.org

Estudantes convocam novos protestos em defesa da educação para o dia 30 de maio

Maranhenses lotaram as ruas da capital São Luís nesta quarta-feira (15) - Créditos: Divulgação
O sucesso da Greve Nacional da Educação fez com que três entidades de representação estudantil convocassem, no início da noite desta quarta-feira (15), o Segundo Dia Nacional em Defesa da Educação, que será realizado em 30 de maio.
A União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (Ubes), a União Nacional dos Estudantes (UNE) e a Associação Nacional de Pós-Graduandos (ANPG) fizeram uma convocatória conjunta durante as manifestações de rua em todo o Brasil e pelas redes sociais.
Segundo apuração da Confederação Nacional de Trabalhadores da Educação (CNTE), mais de um milhão de pessoas participaram das manifestações. Conforme levantamento do Brasil de Fato na imprensa e nas redes sociais, houve manifestações em mais de 200 municípios de todos os estados brasileiros.
O levante dos estudantes é uma resposta aos cortes de orçamento em todos os níveis da educação, anunciados no último dia 30 de abril por Abraham Weintraub, ministro da Educaçã. Nas universidades federais, o governo bloqueará 30% do orçamento previsto para pagamento de dívidas não obrigatórias, como trabalhadores terceirizados, obras, compra de equipamentos, água, luz e internet. 

Na Câmara, ministro da Educação diz que Brasil "gasta demais" com ensino

Convocado para tratar do corte orçamentário nas universidades, Abraham Weintraub é alvo de críticas de diferentes lados

Deputados de oposição protestam com cartazes durante fala de ministro da Educação no plenário da Câmara - Créditos: FotoLuis Macedo/Câmara dos Deputados
Foi sob alta tensão que o ministro da Educação, Abraham Weintraub, prestou esclarecimentos, nesta quarta-feira (15), no plenário da Câmara dos Deputados, em Brasília (DF), a respeito do corte orçamentário de 30% na verba das universidades e dos institutos federais.
Em meio à crise política que circunda a gestão da pasta, o ministro foi fortemente criticado por parlamentares de diferentes partidos, como PT, Psol, PDT, PP, PCdoB, PSB, entre outros. Em um dos momentos mais polêmicos da sabatina, ele afirmou que o Brasil "gasta demais" com a educação.
Weintraub é o centro dos debates de uma comissão geral, espécie de grande audiência pública, que ocorre desde as 15 horas. Em seu discurso inicial, ele repetiu o roteiro apresentado no último dia 7 na Comissão de Educação do Senado, quando foi convidado para falar sobre diretrizes e programas prioritários da pasta.   
O ministro destacou, mais uma vez, que o governo teria como prioridade os ensinos básico, fundamental e técnico. "Não estou querendo diminuir o ensino superior. O que a gente propõe? Cumprir o plano de governo que foi apresentado. Prioridade é ensino básico, fundamental, técnico", afirmou.   
Apesar das críticas feitas nas últimas semanas ao ensino superior, ele disse que esse é um segmento em que o país "está, entre aspas, bem”.
A deputada Margarida Salomão (PT-MG) disse que o governo “comete um erro” ao criar um “antagonismo” entre educação superior e os demais níveis educacionais.
“O Brasil conta com uma legislação que trata a educação como política de Estado. Desde a Constituição Federal de 1988, a LDB [Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional], o PNE [Plano Nacional de educação] tratam a educação de uma forma integrada, e o senhor, na verdade, não privilegia ninguém no seu corte”, criticou a petista, acrescentando que a tesoura do governo atingiu também a educação infantil e os demais segmentos.  
A deputada contrapôs ainda a afirmação de que o país gastaria excessivamente com educação: “O Brasil estaria gastando 7% [do PIB] se estivesse cumprindo o PNE, o que hoje é impossível por causa da Emenda 95 [Teto dos Gastos]. Estamos gastando 5,5%”, rebateu.  
Weintraub também enalteceu a Política Nacional de Alfabetização (PNA), instituída por meio de um decreto assinado por Bolsonaro em abril deste ano, afirmando que o governo federal pretende auxiliar estados e municípios no desenvolvimento da área. “A gente quer dar as orientações, os recursos e o acompanhamento”, disse.  
“Esta sessão não tem como objetivo conhecer o plano de governo apresentado pelo candidato a presidente da República. Esta sessão não tem como objetivo conhecer o PNE, suas metas e a sua evolução como período”, rebateu o deputado Orlando Silva (PCdoB-SP), acrescentando que o ministro não teria conseguido justificar o corte de verbas nas universidades.
Ensino privado
Economista de formação e com trajetória profissional voltada para o mercado financeiro, Abraham Weintraub voltou a enaltecer o ensino privado. Novamente, negou a expansão no ensino público superior na história recente do país e disse que o crescimento nas instituições de ensino superior (IES) teria se dado por conta das faculdades particulares. “O sonho das pessoas é colocar os filhos na educação privada, não na pública”, completou adiante.   
Ainda segundo ele, o “insucesso escolar ao final do ciclo de alfabetização” seria um problema concentrado na rede pública de ensino. Ele disse que a escola privada “tem muito mais sucesso”.  
Com uma postura defensiva, Weintraub afirmou também que o governo não seria responsável pelo atual bloqueio de verbas, que ele creditou às políticas de ajuste fiscal dos governos Dilma (2011-2016) e Temer (2016-2018), e voltou a negar o corte orçamentário, afirmando que a gestão estaria “obedecendo à lei”. O discurso foi endossado também por membros do PSL e outros apoiadores, como o deputado Darcísio Perondi (MDB-RS), que defendeu a política de arrocho sobre a educação e disse que seria somente uma “suspensão de despesa”. 
Ofensiva
Outro destaque da participação do ministro foi a afirmação de que o governo busca uma “rede federal de ensino sem ideologias”. Na sequência, ele voltou a dizer que a produção científica brasileira seria concentrada “em áreas que não geram produção científica”, o que foi, mais uma vez, interpretado como parte da ofensiva governista contra os cursos da área de Humanas.
O líder da bancada do PSB na Câmara, Tadeu Alencar (PSB-PE), afirmou que o governo patrocina uma “cruzada humana contra a filosofia e as ciências sociais” e que a gestão Bolsonaro representa “um conjunto de trapalhadas e equívocos monumentais”.
Outro ponto de tensão se deu quando o ministro foi provocado por Orlando Silva a respeito do posicionamento em defesa da presença de policiais militares nas universidades federais. “Universidade não é lugar de polícia, e sim de liberdade, de pensamento crítico”, exclamou o parlamentar.  
Weintraub fez esse tipo de manifestação em diferentes momentos, como na terça-feira (14), durante um café com a imprensa. Nesta quarta, na Câmara, ele voltou a sustentar o posicionamento: “Autonomia universitária não é soberania. As universidades têm que respeitar as leis e, se preciso, [a polícia] tem que entrar, sim, nas universidades”, disse, sob a reprovação dos opositores.   
“Muito fraco”
O líder da oposição, Alessandro Molon (PSB-RJ), classificou o desempenho de Weintraub na audiência como “muito fraco”.
“Evidentemente, ele não tem preparo, não tem formação pra responder às questões da área. Não é uma pessoa que entenda de educação, portanto, foi alocado ali porque foi a pessoa que o presidente da República achou mais fácil, mas que está longe de atingir os requisitos mínimos pra um ministro da Educação”, avaliou.
O líder também considera que a conduta de Weintraub na comissão geral tende a agravar a situação política do Planalto.
“Ele vai sair daqui mais fraco do que entrou. A própria convocação dele já foi uma demonstração de fraqueza, de fragilidade do governo, e esse desempenho vai contribuir pra uma piora”, acredita o pessebista.
Convocação
Abraham Weintraub foi convocado para comparecer à Casa após a aprovação de um requerimento, na terça (14), cujo placar terminou com 307 votos a favor e 82 contra, em mais uma derrota do governo no parlamento. Somente o PSL – partido de Bolsonaro – e o Novo orientaram os deputados da base a rejeitarem o pedido.
Na ocasião, com receio de um desgaste ainda maior na pasta, o líder do governo na Casa, Major Vitor Hugo (PSL-GO), argumentou que Weintraub já tinha agenda na Comissão de Educação da Câmara nesta quarta pela manhã e por isso a convocação seria desnecessária.  O posicionamento, no entanto, foi vencido pelas demais legendas.       
Esta é a primeira vez que um ministro do governo Bolsonaro é convocado para ir ao Congresso e também ao plenário, e não para comissões legislativas. Nesse caso, o não comparecimento caracterizaria crime de responsabilidade por parte do gestor. As demais vindas registradas até o momento haviam se dado por meio de convite. Por conta disso, a aprovação do requerimento de convocação é interpretada como um sinal de fragilidade do governo no Legislativo.
Apoiado fortemente pela oposição, o pedido se alinha à paralisação nacional e aos protestos que ocorrem nesta quarta no país em defesa da educação pública e contra o bloqueio de verbas.  
Do ponto de vista político, a aprovação do requerimento tem como pano de fundo também o jogo de forças entre deputados do chamado “centrão”, grupo que aglutina diferentes partidos da tradicional direita liberal, e o governo.  
Com dificuldades orgânicas de articulação política e sem conseguir compor uma base oficial de apoiadores no Congresso, o Planalto ainda escorrega na relação com lideranças da Câmara e é alvo de insatisfação de siglas do centrão, que tentam, nos bastidores, acordos por meio de liberação de emendas e cargos para aliados no Poder Executivo.
 fonte: brasildefato.com

Um dia histórico para a Educação e o povo brasileiro

A greve nacional da Educação contra a reforma da Previdência e os cortes no orçamento das universidades anunciados pelo governo Bolsonaro, temperada por manifestações em todos os estados da federação e no DF, confirmou as mais otimistas expectativas dos seus organizadores e faz desta quarta-feira, 15 de maio, um dia histórico para o povo brasileiro. Ocorreram manifestações em pelo menos 116 cidades, segundo levantamento do G1.
A manhã nasceu agitada pelos atos contra o governo da extrema direita, convocados pelas entidades representativas dos professores, estudantes, centrais sindicais e movimentos sociais mobilizados pela Frente Brasil Popular e Frente Brasil Sem Medo. Em Belo Horizonte (MG) uma multidão estimada em 200 mil pessoas marchou até a Praça Raul Soares, palco da manifestação política em defesa das aposentadorias e das universidades.
Em Brasília, foram 50 mil. No Pará, milhares se reuniram no protesto realizado em Belém. Outras cidades do estado também foram animadas pela mobilização. Em São Paulo, secundaristas de escolas particulares iniciaram uma passeata às 6 horas, saindo de Higianólolis e percorrendo o centro da cidade até a Avenida Paulista para engrossar a grande manifestação convocada para a tarde (a partir das 14 horas) no vão do Masp.
Em Campinas (SP) cerca de 5 mil pessoas participavam da manifestação por volta das 11 horas. O ato em Ribeirão Preto (SP) também reuniu milhares. Em Salvador (BA) pelo menos 20 mil pessoas participaram da passeata que saiu da Casa do Campo Grande até a Praça Castro Alves. Em Fortaleza (CE) os protestos começaram às 5 horas com uma caminhada até a reitoria da Universidade Federal do Ceará.
Veja abaixo um balanço provisório publicado com base em informações das agências:
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São Paulo
Na capital paulista, estudantes e professores da Universidade de São Paulo (USP) — que é estadual, mas foi afetada pela suspensão de bolsas de pós-graduação — fecharam uma das entradas da instituição, na Zona Oeste da cidade. Eles seguravam cartazes que criticavam, além dos bloqueios na educação, a reforma da Previdência.
Estudantes secundaristas também faziam manifestação, pouco depois das 7h, pelas ruas de Higienópolis, bairro nobre da região central de São Paulo.
Em Campinas, no interior do estado, a avenida que dá acesso aos câmpus da Unicamp e da PUC-Campinas foi bloqueada no início da manhã estudantes que levaram faixas e cartazes e sentaram no chão. Em seguida, manifestantes encheram o Largo do Rosário. Em Sorocaba, também no interior, ao menos uma escola e uma faculdade ficaram sem aula.
Em Santos, no litoral, petroleiros também se juntaram ao movimento, que também incluiu a defesa das refinarias e o protesto contra a privatização e a reforma da Previdência. Em Bauru, estudantes e professores protestaram em ato em frente à Câmara Municipal. Estudantes e servidores de Boituva também participaram de ação na Praça da Matriz.
Também no interior, estudantes da USP e da Unesp fizeram atos em Ribeirão Preto e em Jaboticabal.
O maior ato do estado, e talvez do país, deve ocorrer à tarde, a partir das 14 horas, no vão do Masp, Avenida Paulista, com concentração e caminhada até a Assembleia Legislativa.
Rio de Janeiro
No Rio, universidades e escolas suspenderam as atividades para protestar. No início da manhã, não havia movimentação em escolas tradicionais como o Colégio Pedro II. A Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a Universidade Estadual da Zona Oeste (Uezo) e a Universidade Estadual do Rio de Janeiro estão entre as que confirmaram paralisação.
Bahia
Na Bahia, escolas públicas e particulares de Salvador amanheceram sem aula. A suspensão das atividades ocorre somente nesta quarta, como parte da ação nacional contra os bloqueios na educação e contra a reforma da Previdência. Estudantes e professores fizeram protesto no Centro da cidade. Segundo organizadores, eram 50 mil pessoas. A PM não divulgou estimativa de público até a última atualização desta reportagem.
Ceará
Em Fortaleza, um grupo de estudantes de instituições federais do Ceará bloqueou a Avenida da Universidade, no Bairro Benfica. O ato começou por volta das 5h, e participantes seguravam faixas e cartazes com mensagens como "Não fechem nossa universidade". Por volta de 7h20, os estudantes desbloquearam a via e seguiram para outro protesto no Centro de Fortaleza.
Minas Gerais
Em Belo Horizonte, estudantes do Centro Federal de Educação Tecnológica de Minas Gerais (Cefet) começaram a se concentrar às 7h para uma manifestação na Avenida Amazonas, no bairro Nova Suíça. Eles carregavam faixas com dizeres como "Luto pela educação" e "A aula hoje é na rua".
Em Viçosa, milhares enfrentaram as chuvas para participar do ato contra a reforma da Previdência e em defesa da Educação realizado pela manhã.
Sergipe
Em Aracaju, os manifestantes bloquearam um dos acessos ao campus da Universidade Federal de Sergipe. Estudantes também se concentraram na porta do Instituto Federal de Sergipe (IFS).
Tocantins
Em Palmas, estudantes fecharam o portão de entrada da Universidade Federal do Tocantins e da Universidade Estadual do Tocantins. Com cartazes e latas, os manifestantes faziam barulho e gritam palavras de ordem pedindo mais atenção para educação.
Pernambuco
Em Pernambuco, houve paralisação de professores de universidades federais. Na Zona Oeste do Recife, professores da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) fizeram atendimento à população gratuitamente, como formar de conscientizar sobre a importância do serviço prestado. Em Caruaru, no Agreste pernambucano, e em Serra Talhada, no Sertão, manifestantes também foram às ruas.
Distrito Federal
No DF, escolas da rede pública de ensino suspenderam as aulas nesta manhã. Na Esplanada dos Ministérios, manifestantes se reuniram em frente à Biblioteca Nacional e seguiram pela via em direção à Praça dos Três Poderes. Por volta de 11h20, os organizadores falavam em 50 mil pessoas.
Paraíba
Na Paraíba, instituições públicas de ensino básico, fundamental, médio e superior suspenderam as atividades. Além da capital, João Pessoa, cidades como Campina Grande, Sousa e Areia tiveram protestos.
Rio Grande do Sul
No Rio Grande do Sul, escolas e universidades paralisaram. Só na região de Santa Maria, foram pelo menos 50 escolas municipais e estaduais que amanheceram sem aulas. Estudantes da Universidade Federal de Santa Maria bloquearam uma via da cidade. A Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais (Fetag/RS) promoveu uma manifestação com apoio dos estudantes, professores, trabalhadores urbanos, CTB e Fecosul. Todos juntos contra a reforma da previdência de Bolsonaro.
Maranhão
Em São Luís, manifestantes bloquearam a Avenida dos Portugueses. A presidente da Associação dos Professores da Ufma, Sirliane Paiva, afirmou que o corte invibializa o progresso do ensino público.
Alagoas
Em Maceió, integrantes de entidades sindicais, professores, funcionários e alunos do ensino público federal, estadual e municipal realizaram protesto nesta manhã no bairro do Farol.
Rio Grande do Norte
Escolas estaduais do Rio Grande do Norte suspenderam as aulas como forma de adesão ao protesto nacional.
Piauí
Em Teresina, estudantes universitários e secundaristas ocuparam a Praça Rio Branco, no Centro, e seguiram até o prédio da prefeitura.
Goiás
Em Goiás, escolas e universidades suspenderam as aulas por conta dos atos. Além da capital, Goiânia, cidades como Jataí e Catalão também tiveram protestos.
Paraná
Em Curitiba, manifestantes se reuniram em frente ao prédio histórico da Universidade Federal do Paraná (UFPR), na praça Santos Andrade.
Santa Catarina
Em Santa Catarina, houve manifestações de professores e estudantes em cidades como Florianópolis e Itajaí.
Amazonas
Em Manaus, servidores e alunos da Universidade Federal do Amazonas fizeram ato na Avenida Rodrigo Otávio, Zona Sul da cidade. Duas faixas da via foram bloqueadas pelos manifestantes.
Acre
Em Rio Branco, funcionários e estudantes da Universidade Federal do Acre fizeram um café da manhã na rua e fecharam o principal acesso à instituição.
Mato Grosso do Sul
Escolas municipais e estaduais, além de instituições federais em Mato Grosso do Sul aderiram à greve de um dia contra os bloqueios na educação.
Roraima
Em Boa Vista, professores, técnicos e estudantes da Universidade Federal de Roraima (UFRR), fecharam os portões da instituição. Além da UFRR, participam do ato o Instituto Federal de Roraima (IFRR) e parte da Universidade Estadual (UERR). O Colégio de Aplicação da UFRR e a Escola Agrotécnica também paralisaram.
Pará
No Pará, as universidades federais paralisaram as atividades. As centrais sindicais organizaram um ato para unificar as diversas categorias da educação e aliados contra o bloqueio de recursos para o setor. Também houve atos em cidades como Marabá e Santarém.
Mato Grosso
Instituições federais, estaduais e municipais de educação em Mato Grosso também aderiram à mobilização nacional.
Espírito Santo
Em Vitória, estudantes e professores da rede estadual de ensino seguiram em protesto da Praça do Papa em direção à Assembleia Legislativa do Espírito Santo.
Rondônia
Estudantes e professores do Instituto Federal de Rondônia (Ifro) fizeram um manifesto no campus do Ifro de Guajará-Mirim (RO), na fronteira com a Bolívia. Os alunos e servidores se reuniram no Ifro e logo depois caminharam até a rotatória principal da cidade.
Amapá
Estudantes, professores e servidores protestaram no campus Macapá da Universidade Federal do Amapá (Unifap). Com faixas, cartazes e caixas de som, o grupo fechou a entrada da universidade, localizada na Zona Sul da capital.

segunda-feira, 6 de maio de 2019

Economia piora ainda mais com Bolsonaro, em março produção industrial caiu 1,3%

A produção industrial brasileira registrou em março uma queda de 1,3%, na comparação com fevereiro, revertendo e anulando o crescimento de 0,6% observado no mês anterior, segundo divulgou nesta sexta-feira (3) o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Com mais esse resultado negativo, o setor passou a acumular queda de 2,2% no ano.
É simplesmente o pior resultado mensal desde setembro do ano passado, quando houve queda de 2,1% na produção do setor. Na comparação com março do ano passado, a indústria caiu 6,1%, recuo anual mais intenso desde maio de 2018 (-6,3%).
Queda generalizada
Houve recuo na produção de três das quatro grandes categorias econômicas e 16 dos 26 ramos pesquisados pelo IBGE. Caiu a produção de bens intermediários (-1,5%), bens de consumo duráveis (-1,3%) e bens de consumo semi e não-duráveis (-1,1%) - o primeiro segmento teve o terceiro mês seguido de queda, acumulando perda de 2,7%. 
Nem mesmo a alta de 0,4% na produção de bens de capital em março ante fevereiro é motivo de comemoração, segundo o gerente do IBGE André Macedo. "É tão somente uma acomodação", afirmou Macedo. 
O pesquisador destacou que no acumulado de dezembro de 2018 a janeiro deste ano a produção de bens de capital encolheu 10,7%. No acumulado de fevereiro e março, houve alta de 5,1%, insuficiente para recuperar as perdas.
Para Macedo, o quadro da produção industrial é de queda generalizada. "Há um claro predomínio de atividades e categorias econômicas em queda", afirmou o pesquisador do IBGE.
Segundo o órgão, entre as atividades industriais, a principal influência negativa foi em produtos alimentícios, (-4,9%), que eliminou parte da expansão de 13,8%, acumulada no período novembro de 2018 a fevereiro de 2019. A produção de veículos automotores, reboques e carrocerias caiu 3,2%.
Expectativas frustradas
O resultado veio pior que o esperado pelo mercado. As expectativas em pesquisa da Reuters eram de quedas de 0,7% na comparação mensal e de 4,6% na base anual. No acumulado em 12 meses, o setor declinou 0,1%. Foi o primeiro resultado negativo desde agosto de 2017 (quando também caiu 0,1%), o que confirma a leitura de perda de ritmo e maior fraqueza da economia brasileira.
Após esboçar uma recuperação no começo do ano passado, o setor voltou a entrar em uma trajetória descendente em julho de 2018 e, desde então, vem mostrando perda de dinamismo. Com o resultado de março, o patamar de produção da indústria brasileira fica 17,6% abaixo de seu ponto mais alto, alcançado em maio de 2011.
"É como se a gente estivesse em janeiro de 2009”, resumiu o gerente da pesquisa, André Macedo, destacando que apesar do elevado nível de ociosidade indústria (o setor utiliza apenas 76,5% da capacidade instalada, o que significa que quase 50% das máquinas e equipamentos estão parados), a demanda também não tem crescido.
"Dado que a gente observa todos esses indicadores no campo negativo, podemos dizer que estamos longe de pensar em qualquer trajetória de recuperação, que dirá de uma recuperação consistente”, avaliou.
Queda de 0,7% no 1º trimestre
Na análise trimestral, a produção industrial registrou queda de 0,7%, na comparação com o 4º trimestre de 2018. Já na comparação com os 3 primeiros meses do ano passado, o recuo foi de 2,2%.
“Este é o resultado negativo mais intenso desde o 4º trimestre de 2016, quando havia recuado 3,1% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior”, destacou o gerente da pesquisa. “Desde o 4º de 2017, quando a indústria crescia 5%, o setor vem numa trajetória de redução de ritmo”, acrescentou.
Questionado sobre as razões para a piora da produção industrial no país, o gerente da pesquisa apontou para a conjuntura econômica do país, com o mercado de trabalho afetando o consumo das famílias, o que influencia nas decisões de investimento por parte dos empresários. “Há outros fatores que também impactam nessa produção, como a redução de exportações importantes”, acrescentou, o que está associado à crise da Argentina.
Bolsonaro agrava crise
Disseram que a eleição de Jair Bolsonaro, descrito como “o queridinho do mercado”, iria estancar a crise ao despertar a fada madrinha dos investimentos privados. Mas os fatos sugerem que vem ocorrendo o contrário.
Além de aumentar a insegurança e as incertezas as iniciativas do governo vão no sentido de aprofundar a crise também porque estão subtraindo investimentos públicos em áreas vitais, estimulando o arrocho dos salários e a precarização das relações entre capital e trabalho, aumentando o desemprego e reduzindo ainda mais a demanda interna.
A alta ociosidade indica que o principal problema da economia é a insuficiência da demanda provocada pelo desemprego em massa, redução de salários e direitos e cortes dos investimentos públicos. Se a demanda crescesse, o que no caso pressupõe aumento da renda e do consumo popular, a recuperação da produção industrial seria possível mesmo sem novos investimentos em máquinas e equipamentos, através da utilização da capacidade ociosa e a contratação de novos trabalhadores e trabalhadoras.
A política de restauração neoliberal vai em outra direção e tem responsabilidade ímpar pelo agravamento da crise, a estagnação da produção e o avanço do processo de desindustrialização da economia brasileira.
Os neoliberais que infestam o Palácio do Planalto não dão o braço a torcer e prometem que após a aprovação da reforma da Previdência a recuperação virá com força. Mas já ouvimos esta mesma ladainha em relação à reforma trabalhista e ao congelamento dos gastos públicos. Contempla interesses poderosos, mas não é confiável. Tirar dinheiro, emprego e direitos da classe trabalhadora tem sido e é o caminho mais curto para agravar a crise.
fonte: portalctb.org

Em vez de combater o desemprego, Bolsonaro faz cruzada contra a Educação

O governo revela uma indisfarçável aversão ao pensamento crítico. O ensino que prepara para a vida e a cidadania é visto com temor



Em vez de combater o desemprego, a fome ou a falta de moradia, Bolsonaro parece decidido a levar adiante uma cruzada contra a Educação. Sua trajetória, é verdade, jamais inspirou bons ventos para a área no Brasil, mas seria difícil imaginar uma saga tão bizarra e com tamanha repulsa de um dos pilares centrais para o nosso desenvolvimento.
passagem de menos de cem dias de Vélez Rodríguez pelo MEC dava a impressão de ter garantido ao colombiano o título de pior ministro que ocupou a pasta na história. O novo titular, Abraham Weintraub, parece, no entanto, ter um empenho fervoroso em disputar o prêmio e segue a mesma direção, em ritmo até mais acelerado do que seu antecessor.
Antes mesmo de assumir, Weintraub defendia que os nordestinos deveriam trocar a Filosofia pela Agronomia. Como ministro, o preconceito transformou-se em proposta de governo anunciada e apoiada publicamente por Bolsonaro: corte de investimentos em faculdades de Ciências Humanas de todo o País e foco em áreas que gerem um suposto “retorno imediato ao contribuinte”.
A alegação é de que esses cursos seriam elitizados, por isso deveriam ser pagos e não oferecidos na universidade pública. “Pode estudar Filosofia? Pode”, tranquilizou o ministro, como se estivesse sob sua alçada banir a disciplina do Brasil. “Mas com dinheiro próprio.”
Qualquer um que circula em universidades públicas percebe o perfil de quem frequenta cursos como Filosofia e Sociologia. Somam hoje apenas 2% do total de alunos das federais e, ao contrário do que é a regra em cursos como Medicina ou Engenharia, a maioria não tem origem elitizada. Muitos são os primeiros de suas famílias a ingressar no Ensino Superior. A formação desses jovens representa, inclusive, um investimento crucial para o futuro: serão eles que vão lecionar em milhares de salas de aula de escolas públicas e formar nossas próximas gerações. Nada disso parece significar alguma coisa para o atual governo.
E a imposição de critérios discricionários – e delirantes – para a distribuição de recursos nas universidades não se limita aos cursos de Ciências Humanas. Weintraub decidiu nos últimos dias anunciar um corte de quase 6 bilhões de reais em gastos com água, luz, limpeza e bolsas de auxílio de universidades federais para as instituições que, em sua prova de avaliação, promovem “balbúrdia”. Para o ministro, uma instituição que organiza debates críticos ou recebe “sem-terra dentro do campus” precisa ser retaliada.
O corte de verbas por critérios ideológicos e, além de tudo, toscos é não só autoritário como flagrantemente ilegal. Sabendo ser alvo fácil de uma ação de improbidade, o ministro “recuou”, mas da maneira mais estúpida que se poderia imaginar: estendeu o corte de 30% para todas as universidades federais.
Na verdade, o que está em jogo não é o perfil social dos estudantes ou atividades pontuais nas dependências das universidades, mas uma indisfarçável aversão ao pensamento crítico. A educação que prepara para a vida e forma para a cidadania é vista com temor. Nunca isso foi tão evidente num governo. Por isso atacam tanto Paulo Freire. Por isso gostariam que a universidade fosse reservada apenas para uma “elite intelectual”, cabendo aos demais apenas ler, escrever e fazer contas.
Ao contrário de seu carinho pelos milicianos, Bolsonaro sempre tratou professores como inimigos. Estimula a violência, divulga vídeos descontextualizados por meio das redes sociais, faz pronunciamentos preconceituosos. O ataque e a perseguição são as bases de sua plataforma de governo. Fora delas, é incapaz de formular propostas e sequer frases com algum nexo. O presidente, o “conge” Sérgio Moro, o ministro da Educação que “insita” a violência e seu “literalmente” incompreensível filho colocam até a língua portuguesa no rol de adversários.
O mais grave é que não se trata apenas de tuítes ou discursos. Seu governo utiliza o ministério com maior orçamento do País para sustentar uma plataforma de destruição da educação e manter seus alucinados sequazes em atividade. Caso siga em marcha, os efeitos dessas medidas podem afetar milhões de brasileiros e comprometer o futuro da próxima geração.



fonte: cartacapital.com 

Mino Carta: Lula dá uma lição de resistência

E também de altivez e sabedoria: é a entrevista do ex-presidente



A entrevista de Lula à Folha de S.Paulo e ao El País ainda vibra nesta redação e o que nos toca em primeiro lugar é a lição de altivez e desassombro que a marca para sempre. As palavras do ex-presidente sobre as razões que o levam a manter a resistência a partir da prisão curitibana nos comovem e nos empolgam.
Fundamental na análise deste momento crucial da história nacional o depoimento de Lula, dado antes do início da entrevista e gravado pelo valente Ricardo Stuckert, extraordinário e fidelíssimo biógrafo de quem acompanha a largo tempo. A Folha não o publicou, ao contrário do El País, representado por Florestan Fernandes Júnior, e pelo site online da Forum. Alguns trechos, os mais significativos, estão na página ao lado.
Lúcida e implacável a análise da sequência de ações que do impeachment de Dilma Rousseff levam à condenação sem provas, aos desmandos de Temer e à eleição de Jair Bolsonaro. Fio condutor: a demência como forma de governo, o entreguismo do súdito e a demolição do Estado. O entrevistado reconhece a unicidade da conspiração à brasileira, do fatídico jeitinho de inventar motivos e enganar a plebe rude e ignara. Sublinha Lula haver países ameaçados, ou a pique, de perder as benesses criadas pela democracia, enquanto o Brasil nem chegou a conquistá-las. Ao dar passos essenciais neste sentido, dados pelo governo petista,  foram engolidos pelo golpe e suas consequências.
Tenho pelo meu eterno presidente, do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo e Diadema à República, uma amizade irrecorrível vincada pela franqueza a caracterizar uma relação de autêntica substância. Ele nunca deixou de se abrir comigo e eu nunca deixei de expor meu pensamento. Lula me cita a propósito do caso Battisti: é fato que insisti junto ao então presidente, a lamentar a espantosa ignorância de quantos viam um herói em um mero terrorista, ex-ladrãozinho do arrabalde romano. Preferiu dar ouvidos a quem nada sabe a respeito da história recente da Itália. Já a história deste Brasil formalmente desigual ele a conhece a fundo e desnuda em toda a sua malignidade.
A situação em que precipitamos ele a percebe desde as raízes, aponta inclusive a diferença abissal a separar os atuais parlamentares que desonram o País e o Congresso que editou em 1988 a nova Constituição, presidida por Ulysses Guimarães, notabilíssima personagem merecedora da melhor lembrança. E a mim vem à memória o dia do começo de janeiro de 1984, quando o doutor e o governador Montoro me pediram para procurar o jovem líder do PT e reiterar o convite a participar da manifestação das Diretas Já convocada em São Paulo na Praça da Sé no aniversário da cidade, a 25 daquele mês. Logo almocei com Lula e ouvi dele o que esperava: “Estarei lá, obviamente”. Acompanhava-me um amigo caríssimo, jornalista italiano de passagem por São Paulo, e ele carregou a certeza de que eu era um potentado da República, a despeito do meu esforço de demovê-lo desta convicção. Lula foi à manifestação e figurou na linha de frente do palanque diante de uma plateia de 500 mil pessoas. Ao cabo da memorável festa cívica, um grupo dirigiu-se à Avenida Paulista e incendiou uma perua da Globo.
Outro era o Brasil. Compreensível agora o apoio irrestrito que Lula dá ao PT, a meu ver partido tíbio diante do descalabro terrificante dos dias de hoje. Mas Lula é um ser de emoções à flor da pele, generoso por natureza, amigo irredutível dos amigos ‒ e não lhe faltaram os traidores. Por causa desse aspecto da sua personalidade, se quisermos encantador, e apesar do QI muito elevado, do senso de humor agudo, da vocação da tirada irônica, às vezes ele tropeça em enganos diria mesmo ingenuamente. Nem sempre a paz na terra premia os homens de boa vontade, conforme cantaram os anjos na noite de Nazaré. De todo modo, por raciocínios distintos, apreciei a sabedoria que o inspirou ao falar de Guilherme Boulos e Ciro Gomes.
Se eu estivesse entre os entrevistadores, não teria hesitado em fazer perguntas a respeito de uma alta corte naturalmente incumbida de velar pelo cumprimento da Constituição. Como sabemos, deu-se o exato contrário. O Supremo poderia ter agido desde 2014 para impedir a criminosa atuação da Lava Jato ao longo de um processo que transforma o juiz imparcial em inquisidor disposto a condenar sem provas ao sabor das fantasias dos pregadores de uma cruzada. E ignorou os poderes que lhe permitiam intervir no processo de impeachment de Dilma Rousseff para coibir mais um desacato à Lei Maior e a clamorosa injustiça cometida contra Lula. Um Supremo conivente e velhaco aderiu, tal o verbo correto, ao golpe de forma decisiva em todas as suas passagens. E ainda ter perguntado como enxerga agora os Toffolis e Fachins da vida, as Rosa Webers e Cármen Lúcias, e outros que o quiseram onde hoje se encontra.
De minha parte, recordo que no dia 15 de abril de 2015, Dilma, no início do segundo mandato, de Joaquim Levy a tiracolo, almocei com Lula em minha casa, com a companhia do professor Belluzzo e de minha filha Manuela. Lá pelas tantas, ao enfrentar um ossobuco com raspa de limão sobre o tutano, sustentei a necessidade imperiosa de uma pronta reação. O plano do golpe já estava em andamento desde a eleição e o impeachment da presidenta e a condenação sem provas pelo inquisidor curitibano já figuravam no script. Não se tratava de profecias, mas de constatações. Sugeri: aluga um ônibus e organiza uma caravana, começa por sua terra, Garanhuns, atravessa o Nordeste, vai ao Norte, desce para Salvador, depois Belo Horizonte, enche as praças, abre os olhos do povo, faz um barulho do capeta. Como sempre, disse o que penso. A caravana saiu quando era tarde, Lula já condenado. Ninguém me tira da cabeça que, se ele aceitasse minha sugestão, não haveria golpe e tudo o mais.

O prólogo

Confira trechos do documento lido antes da entrevista:

▪ Aquele golpe começou a ser preparado em 2013 quando a Rede Globo de Televisão usou sua concessão pública para convocar manifestações de rua contra o Governo e até contra o sistema democrático. Tudo valia para tirar o PT do Governo, inclusive a mentira e a manipulação pela mídia.
▪ O novo Brasil que estávamos criando junto com o povo e as forças produtivas nacionais foi retratado pela Rede Globo e seus seguidores na imprensa como um país sem rumo e corroído pela corrupção.
▪ Nem em 1954 com Getúlio nem em 1964 contra Jango se viu  tanta demonização contra um partido, um governo ou um presidente. Centenas de horas do Jornal Nacional e milhares de manchetes de revistas contra nós. Nenhuma chance de defender nossas opiniões. Mesmo assim, em 2014, derrotamos os poderosos nas urnas pela quarta vez consecutiva. Para quem não conhece o Brasil, nossas elites dizimaram milhões de indígenas desde 1500, destruíram florestas, enriqueceram por 300 anos a custas de escravos tratados como se fossem bestas. Colonos e operários tratados como servos. Divergentes como subversivos, mulheres como objetos. Diferentes, como párias. Negaram terra, dignidade, educação, saúde e cidadania ao nosso povo.


▪ Criamos o PT em 1980 para defender as liberdades  democráticas, os direitos do povo e dos trabalhadores. O acúmulo das lutas do PT e da esquerda brasileira, do sindicalismo dos movimentos sociais e populares nos levou a consolidar um pacto democrático na constituinte de 1988. Esse pacto foi rompido pelo golpe do impeachment em 2016 e por seu desdobramento que foi a minha condenação sem culpa, e minha prisão em tempo recorde para que eu não disputasse as eleições.